quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Um lindo novo dia

Ela acorda e põe a mão na barriga para sentir o estômago. Ele não doeu essa manhã. O sol entra pelas frestas da janela e ilumina a poeira do quarto. Não é uma luz laranja como as da manhãs de sol. É uma luz acinzentada, opaca, sem vida, mas forte o suficiente para trazer um pouco da manhã para o quarto.

Uma avenida aparece na TV, um homem em chamas corre na direção do expectador. A família toma um café delicioso. O pai agradece a mãe pela refeição, e ela lhe dirige um sorriso torto e deformado. Um cachorro late lá fora.

Um ninho de abelhas é incomodado pelos vizinhos. Uma vara gigante de madeira perturba a colônia. As pessoas lá embaixo, dão gritinhos de expectativa. Quando a colméia se espatifa no chão, os guerreiros voam para salvar a sua rainha, mas são detidos por um poderoso inseticida. A rainha agoniza no chão, o ventre inchado de vida. Uma criança pisa nela e espalha uma sujeira amarela na rua.

Uma bicicleta passa por poças de lama. Noite passada, houve uma grande tempestade por ali. A energia elétrica apagou e , por vários minutos, as casas foram iluminadas pelo horror dos raios. As crianças acordavam com a luz e o barulho dos trovões e choravam pelos seus pais que, impotentes, explicavam que tudo ia passar. Bem, eles não tinham certeza.

Na mesma noite, uma kombi lotada de evangélicos rodava a cidade para pregar pela cidade, a palavra daquele que morreu na cruz e o seu pai. Muitos dos que estavam na kombi, estavam experimentando a sua primeira vez naquela magnifíca de fé. O medo subia pelos corpos deles. Alguns tremiam. Um irmão mais experiente explicou que era normal.

A palavra do senhor era distribuida na forma de um pequeno papel de formato retangular. Nele havia a história do primo de Jesus, João batista. O papel era uma licensa poética contando os pensamentos finais desse grande profeta, no cativeiro, a mercê de homens e mulheres mundanos, a sorte dele estava chegando ao fim e a fé era a sua unica arma.

Dias antes, ele havia encontrado o filho de Deus, nas margens do rio Jordão e o batizou. Uma pomba branca desceu do céu para confirmar a validade do ato. Quando a silhueta daquele homem ia se perdendo no horizonte, João Batista enxergou a sua sina e a dele. Ambos iam ser mortos. O maré de areia do tempo iria apagar a verdadeira história.

Misericódia, Pai. Ele se ajoelhou , horrorizado, nas margens do rio e gritou por misericórdia por ele, pelo seu primo e tudo mais. Algum tempo depois, ele foi preso por um rei adúltero e foi jogado em uma cela escura. Uma dança exótica decidiu a sua sina: sua cabeça em uma bandeja para a princesa Salomé.

Ele olhou pela janela de sua cela. Estava escuro demais. O mundo inteiro dormia. Pela manhã, os pássaros iriam cantar a música de Deus, o orvalho encheria o ar, as vozes tomariam o lugar do vento e ele não estaria mais lá. Era o fim, mas era um fim digno. As pessoas lembrariam da palavra forte dele. O pai ensinaria ao filho; o filho ensinaria ao filho do filho; o filho do filho ensinaria ao filho do filho do filho. Era um consolo para quem viveu a vida inteira só e cresceu no deserto.

A triste, mas edificante história do batista de jesus era distribuído pelos evangélicos para os doentes, leprosos, filhos da puta, obesos, putas, cavajestes, desgraçados, artistas indepedentes e toda a escória do mundo.Houve casos que o receptor da palavra não tinha pernas, nem braços. Dessa forma, os folhetos eram enfiados na boca ou nos umbigos desses coitados.

Os jovens evangélicos, que antes eram temerosos, agora se enchiam de orgulho ao ajudar aqueles pobres homens. Ás vezes, irmã Vanda parava a kombi para eles rezarem. Os irmãos apertavam as mãos com força por causa do significado daquele momento. Irmão Wagner então tocava uma linda melodia contando a forma que Davi reencontrou o Senhor dos seus tempos de pastor em que acordar e sentir o cheiro das coisas vivas era a maior das recompensas.

Irmã Marieta era uma das que mais se emocionava. Ela tinha a metade do rosto deformado por um marido violento que, bebado, incendiou a casa com os seus dois filhos menores. Ela encontrou em Deus, a reposta para o seu luto, para as suas indagações e , em troca, virou a mais fiel soldada dele. Disposta a desembainhar qualquer arma para lutar por ele. Na hora do canto de Davi, ela lagrimava, esperneava, gritava, falava em línguas desconhecidas.

Naquela noite, porém, as coisas foram diferentes. A kombi não completou metade do seu percuso, quando uma tempestade terrível começou. A água parecia a ponto de romper os vidros da kombi. Eles rezaram, rezaram, rezaram, mas o som do trovão era maior, mais terrível. A luz dos raios iluminava o interior do automovel de forma assustadora. Rezar era demais, o ideal nessas horas era morrer de medo.

Uma bandeira tremeluzia de forma agourenta em um mastro. Vinte seis ou vinte quatro estrelas, eu realmente não sei, mas o pano desgrudou e voou , derrotado, pelo céu até cair em uma vala, onde, pela manhã, seria a honorária companheira de merda de cães e água do esgoto. As pessoas dentro da van se calaram. Irmã Marieta estava muda de horror e sentia todo o vazio da sua existência. Feia, deformada, acariciando mendigos para acalmar o animal que vivia dentro dela, animal esse que chorava pelo horror do sexo, da fornicação secular, do pecado.

Ela se encolheu um dos bancos, diminuída.

A chuva parou pela manhã. A kombi voltou a andar. Os buracos das ruas estavam cheios de águas, os carros passavam por cima e molhavam pedestres desatentos. O sol brilhava pálido no céu, logo ele ficaria forte o suficiente para secar a água da vala, enxugar as folhas das plantas e iluminar o dia dos filhos de Deus. Isso encheria o coração deles com muitas lições de amor, paz, companheirismo e superação.

Até outra terrível tempestade.




4 comentários:

  1. Aaahh, enfim um texto mais leve... Obrigado por fazer uma crônica "pra mim".

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  2. adoro os seguidores do deus de Abraão

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  3. desculpa a demora gordo,

    mas achei esse texto simplesmente a melhor coisa que tu já escreveu. fiquei realmente muito surpreso. tu tá melhorando a cada nova linha que escreve. enfim, ainda podemos virar grandes escritores falidos num futuro próximo, de acordo com nossas ambições.

    tchau (vamos combinar alguma coisa pra fazer esses dias??)

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  4. Realmente, que texto impressionante, Igor.

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