quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Magave 1 de 8: A base aérea do Amapá

Dirígivel pousando na base aérea do Amapá.


Quando eu, finalmente, consegui coragem para ir na casa dos Magave, o nosso trabalho já estava fadado ao fracasso.Tínhamos um plano ambicioso para a nossa conclusão de curso: íamos nos aproveitar da sede de sangue e formatos estéticos para contar de uma forma totalmente diferente, a a história da família Magave.Foram cinco longos meses morrendo na praia, se fodendo e , diferente das outras histórias edificante que eu ja tinha lido na minha vida, e as coisas estavam bem longe de terminar.

Bem, antes de dar inicio ao making-of mais triste da história da humanidade, eu irei explicar de onde tirei a minha triste idéia. Tudo começou em mais um dia improdutivo na faculdade de jornalismo, um curso que eu escolhi por pura falta de opção e para diminuir a minha sempre tão terrível melancolia.Comecei a fazer esse curso em 2006, um ano depois do horror terrível que consumiu a minha alma em outra cidade. Uma época em que qualquer horror era incomparável e a dor do meu ser atingia níveis críticos.

No anterior a 2006, eu fui passar um curto período de 3 meses na casa da minha vó materna. Eu e a minha tia moribunda. Esse periodo compreendeu o dia dos finados ( que a minha tia dizia já comemorar como se já estivesse morta), o natal ( que ela fazia questão de dizer a todos que seria o último), o ano novo ( que ela dizia ser o ano final da vida dela, me fazendo ter uma séria crise de ansiedade e asma), o aniversário da minha tia( que ela se recusou a tirar fotos por causa da careca), o meu fracasso no vestibular ( que ela já dizia que já sabia que ia acontecer, pois ela me considerava um retardado), a perda da virgindade do meu primo ( que a minha tia espalhou para a família toda no almoço) e a própria morte dela( que eu não vi).

Nesse período, a casa da minha vó se enchia de parentes que gostavam de prestar solidariedade a semi-morta, crentes oportunistas, crianças e eu. Havia pessoas estranhas visitando a casa, pessoas bem estranhas. Duas, eu gostaria de destacar. A primeira era os vendedores de NONI.Um suco de fruto com poderes medicinais que eu sei bastante pouco, mas pesquisei na internet para fornecer aos leitores desse blog, uma noção do que é. Então vamos lá:

"O suco Tahitian Noni não é um medicamento.
Seus inúmeros benefícios para a saúde advêm de seu altíssimo valor nutricional. Ele é um alimento natural. Além dos aspectos nutritivos básicos (balanço calórico, protéico etc.).
Também pode ser considerado um complemento alimentar bastante completo, possuindo uma grande variedade de nutrientes e micro-nutrientes, dentre eles a proxeronina, cujos benefícios para a saúde são facilmente notados pela imensa maioria das pessoas que utilizam o suco por tempo suficiente para suprirem suas deficiências nutricionais. A verdade é que hoje em dia, quase todo mundo tem algum tipo de carência e desequilíbrio no que se refere à sua nutrição. É por esse motivo que as pessoas doentes (seja qual for a enfermidade) costumam beneficiar-se do suco Tahitian Noni. Muitos de seus sintomas se atenuam ao fazerem uso do suco, o que acaba por confundi-las, fazendo com que pensem que o suco as curou. Entretanto, a verdade é que essa melhora é o resultado da ação reconstituinte do Noni, que ao nutrir adequadamente as células, faz com que o organismo recupere seu funcionamento harmonioso, que se traduz em saúde e sensação de bem estar. Isso se deve não apenas à xeronina, mas à ação sinérgica dela e dos demais constituintes do suco Tahitian Noni."

Os vendedores de None apareciam sempre em todo sexto dia do mês. Uma mulher com uma aparência desgrenhada descia de um Pallio com uma grande mala. Eu e os meus primos ajudávamos a carregar a mala. Ela não agradecia. Havia um ar idiota e superior no rosto dela que era acentuado pelo nariz empinado . O marido vinha logo atrás, sempre atrás.Destratado pelos 6 degraus que compunham a escada que dava o acesso a casa da minha vó, ele afirmava que a esposa fazia isso apenas para se mostrar para os estranhos, pois na cama, ela ficava bem quietinha a espera do pau dele. "Coisas de mulher rá rá rá" ele dizia.

A mala era arrastada até o quarto que ficava a minha tia. A mulher que vendia o NONI era xingada pela minha tia  por fazer tanto barulho, por usar um perfume tão forte, por causa do leve cheiro suor que ela emanava por sair do carro e subir as escadas de concreto. A vendedora de NONI ria e dizia que a carequinha era braba demais, mas o NONI iria resolver isso.Então ela tirava uma garrafa com um líquido vermelho com uma etiqueta de um havaiano segurando um cacho de algo que parecia uvas vermelhas. Quando a garrafa era destampada, o conteúdo emanava um ar doce pelo quarto. Minha tia sentia ânsia de vômito e algum primi meu corria com uma pequena bacia para acudí-la.

O fato é que o NONI, de certa forma, exercia uma pequena melhora na minha tia. Os lábios ganhavam cor novamente e , raramente, ela abria um sorriso.Nós tentávamos rir com ela, mas eramos repreendidos pela sua vilania sem fim. Infelizmente, a quimioterapia tornava o NONI intomável. O cheiro doce esbarrava no enjôo sem fim do procedimento. Todas as ávores do Havaí que cresciam na mente do usuário pareciam secar até a morte. Os troncos pareciam ficar opacos, o céu azul parecia perder a cor e os amantes, na beira da praia, se contorciam com uma dor sem fim. Os olhos saltavam das órbitas e o horror dominava aquela terra vírgem.

Os segundos visitantes eram de uma pequena igreja, formada recentemente no Pará.Mais uma. Igreja do diagrama divino. Fundada em 1956, pelo missionário João Batista figueredo, a igreja conta com bastante fiéis no Brasil inteiro. Tudo começou quando uma das filhas do fundador caiu doente em uma bela tarde. A família era bastante católica e rezou bastante para a cura da criança, o que não deu muito certo, pois a criança morreu logo depois, engasgada com o próprio vômito, depois de ter tossido bastante.

Durante o enterro da criança, o pai sentiu fortes dores na região do abdômem por muitos e muitos dias. Ele foi levado para o hospital e depois de alguns exames, foi constatado que ele possuía a mesma doença da filha( e mais uma úlcera). Ele passava o dia todo consumido pela doença e pelos remédios. Nas alucinações mais loucas, a filha vinha direto do mundo dos mortos e lhe fazia um delicioso e suculento sexo oral. A filha dizia para ele algumas palavras sábias, mas ele não entendia por causa do pênis que entupia a boca da criança.

Um dia, a dor alcançou níveis horrendos e ele começou a gritar. A esposa, incomodada, saiu de casa e começou a gritar por ajuda na rua até parar e comer alguma coisa na lanchonete da esquina. Ele ficou lá , no quarto, sozinho como todo homem,fechou os olhos com tantas força que um desenho apareceu, quando ele abriu os olhos. Esse desenho:
O círculo da dor e as suas mútiplas camadas
Bem, não havia esses numeros e tal, mas o círculo de camadas apareceu dessa forma em sua visão e permaneceu o suficiente para ele transcrever em um pequeno papel. Uma coisa notável no círculo era que, dependendo da situação, certas camadas pareciam se destacar mais que as outras. Abatido pelo luto e pela doença, a região número 3 pulsava com mais força na sua vista.Bem, vou parar de contar a história da igreja, pois eu ainda tenho que falar do meu próprio drama pessoal e, pelo menos, iniciar a triste história que envolve eu e a também triste história da família Magave.

Por isso, vou explicar a idéia central da igreja. As camadas de dor mostram o quanto o homem está distante de Deus e cego pela própria dor. A missão da igreja, então, é fazer o fiel se livrar da redoma interminável desse terrível circulo e iniciar uma nova vida, onde unicórnios comem mato no quintal e tudo mais.Coisas que toda religião promete.

A primeira visita aconteceu em um dezembro realmente chuvoso. Seis pessoas de terno, desceram de um um kombi. Eles subiram os degraus que davam acesso a casa da minha vó. Uma mulher baixinha e gorda reclamou da coluna e foi repreendida por um irmão de igreja. "Quem acredita, não reclama". Minha prima abriu a porta para eles. No entanto, o portão que ficava antes da porta, estava cheio de cadeados. Começou uma chuva. Os evangélicos foram se ensopando enquanto a minha prima procurava pelos cadeados. "Quem acredita não se molha" disse um deles.

Quando eles finalmente conseguiram entrar na casa. A minha vó deu toalhas para se enxugar e ofereceu um café para eles esquentarem o corpo. A irmã gordinha aceitou. O chefe da comitiva perguntou para ela em que camada ela estava no círculo. Ela fechou os olhos e visualizou a pequena casa de madeira que ela morava na periferia daquele lugar, viu os filhos, o marido desempregado, a cadela Léssi e o círculo foi se formando. Ela começou a chorar e se contorcer no chão. O horror no rosto dela era visível. Os outros irmãos começaram a gritar de dor em solidariedade a irmã. A chuva lá fora piorava.

O chefe da comitiva desenrolou um papel com um circulo com umas dezessete camadas. Ele perguntou da gordinha, que ainda se contorcia, em qual camada ela estava. Ela apontou a camada número 12, azul claro. Sim. O azul claro das manhãs sem sol, onde os bois pastam, as borboletas voam sobre as floreso, o orvalho seca nas folhas. Todo milagre do mundo acontece nas manhãs de azul claro. Davi, o pastor anda pelos pastos, comtemplando a obra do Criador. Uma ovelha se fere em um espinho. O espinho se infecciona e mata a ovelha algum tempo depois. O cadáver apodrece entre as ovelhas que acabam morrendo também. Agora, todas as ovelhas apodrecem ou agonizam no pasto. Davi viu a morte, Davi perdeu a inocência. O gigante Golias tomba sobre  a terra. Davi agora é rei. Davi manda Urias para morrer na guerra. Bate-Seba deita, nua, no divã. O pecado destrói a estrela de seis pontas. O servo toca na urna sagrada e morre. Natã aponta o dedo acusador para o sucessor de Davi.

A pequena crente para de contorcer. O chefe da comitiva explica a ela que quem acredita não tem convulsões. Ela acena a cabeça concordando. Eles se dirigem para a cama da minha tia, que, agora, não passa de um pequeno reflexo do que já foi no passado. A cabeça sem cabelos, o corpo magro demais, a voz asfixiada, o braço queimado na radioterapia. O papel com o círculo é grudado na parede e aquelas pessoas explicam a minha tia como funciona. Minha tia não ouve mais. Se Deus é responsável pelas coisas, ele foi realmente cruel com ela. Ela os enxotou do quarto e ficou chorando durante meia hora. As pessoas que ficavam com ela estavam meio entediados das mesmas cenas sempre, por isso só restou a eles darem um longo e triste suspiro.

O chefe da comitiva explicou a minha vó que o trabalho demoraria para surtir efeito.Em maio, eles voltariam lá. Em maio, a minha tia ja estava morta. Seriamente traumatizado, eu voltei para Macapá( estou odiando essas novas configurações do blogger)e ingressei na faculdade de jornalismo.Foram três anos e meio de completa inutilidade. Eu sempre me espanto com a minha capacidade de ser um completo idiota em tudo o que eu faço. No último ano, eu ingressei no coletivo palafita e tive a minha incrível idéia para o tcc. Um quadrinho contando o hediondo destino dos Magave, uma família do município do Amapá. Para isso, eu contei com a minha parceira Danielle( que sofreu bem mais que eu no processo do trabalho) e muito azar.

Nossos trabalhos começaram no segundo semestre de 2009. A pobre Danielle se deslocava do extremamente longíquo bairro Universidade para a minha casa no Cabralzinho. Em todos os nossos encontros, eu estava completamente destruído pelo meu horror pessoal( que estava no auge naquela época). Dessa forma, nossas reuniões não eram nada lucrativas. A parte que cabia a Danielle( a monografia) andava perfeitamente bem. A minha ( o roteiro) nunca passava da página 4. Na verdade, devido a minha volubilidade com as coisas, eu não estava mais nem aí para o tcc e os Magave e , pensando bem, eu nunca tive, de fato, um envolvimento com todo o drama da história.

O trabalho todo era feito pela pobre Danielle que, jamais, reclamava.E assim passou Agosto, Setembro, Outubro, Novembro.Havia a necessidade da família ser entrevistada. Nós conseguimos localizar um Magave que morava na Avenida Fab, em Macapá. Marcamos a nossa primeira entrevista com ele. Eu faltei e fiquei em casa, choramingando pelo meu drama pessoal e depois saí para beber. A primeira entrevista ocorreu sem problemas, a minha parceira de TCC marcou um retorno e me informou que eu teria que ir. Isso me deixou irritado, pois eu tinha medo das consequências emocionais para mim ao falar com alguém que tinha sofrido um trauma tão grande.

Dessa forma, eu arquitetei para fugir mais uma vez desse terrível encontro. No entanto, eu não consegui. Então, em algum dia de novembro, eu e a minha parceira de tcc esperávamos pelo nosso entrevistado, que ainda não havia chegado em casa. A residência dessa parte da família Magave fica na Avenida Fab, perto de um depósito da companhia áerea GOL. A casa tem uma frente simples, há um pequeno portão de ferro que fica antes da entrada da porta principal. A casa parece ter outras seções na parte de trás, onde devem morar mais membros da família. Coisa bem normal em Macapá. Na frente da casa, há um daqueles carros com caminhonete e outro carros. Existe, também, um pequeno desnível da casa dos Magave para a loja da companhia GOl. As pessoas usam esse desnível para se sentar.

O nosso entrevistado era Francisco Magave, um dos filhos da senhora Nadir Magave que perdeu a vida naquele triste episódio. Na época, Francisco cuidou dos tramits que envolviam o funeral dos seus irmãos e de sua mãe, da intricada e quase sempre infrutífera investigação dos casos e da imprensa amapaense ( que não perdia a oportunidade de chama-lo de Raimundo). Hoje, ele parece seriamente afetado pela experiência. A nossa entrevistada sempre era interrompidas pelos constantes brancos que o entrevistado tinha. Para ajudar a memória, ele conta com um pequeno clipping de matérias da época, algumas fotos dos familiares mortos, laudos da perícia, carta dos acusados e só.

Algumas vezes, ele fitava o vazio e ficava nisso por dois, três minutos. Nós ficávamos bastante constrangidos e quando tentávamos retornar o assunto, ele já não conseguia mais voltar ao ponto de que tinha parado. O sol castigava o asfalto e o nosso estômago começava a sofrer demais. As diversas explicações fragmentadas do entrevistado criavam mais e mais fissuras na história original. Eu fechava os olhos e enxergava o círculo de dor com umas 90 camadas. Todas pulsando fortemente. A parte boa da entrevista é que muitos mitos a respeito da família foram caindo. O primeiro foi o de que a família toda morou a vida toda no sítio em que ocorreu o incidente.

O pequeno sítio, na verdade, era apenas uma propriedade da família. Os magave residiam na base aérea do Amapá. Na época, a base devia estar no seu auge. O local foi construído por causa da localização específica. Os Magave devem ter visto os muitos dirígiveis pousando na pista imensa. Esses traziam carros, tanques, armas, soldados e coisas do tipo. Meu avô presenciou um dirigivel imenso passando sobre a pequena cidade que ele morava, no interior de Vigia, no Pará. Eram imensos, silenciosos e faziam as crianças chorarem. As mães diziam aos filhos que as cordas que saíam daquelas coisas iria levar todas as crianças malcriadas para o inferno. As crianças choravam desesperadas.

Depois da guerra, os americanos foram embora e levaram toda a infra- estrutura da base. O lugar foi se degradando aos poucos. Com o acidente do dirígivel Hindenberg, a fabricação dos dirigíveis foi paralizada para sempre. O céu agora era dominado pelos barulhentos aviões. Não o céu do Amapá. Com a base desativada, os aviões pararam de pousar ali, as instalações da base foram tomadas pelo mato, as placas foram destruídas pela ferrugem. Hoje, só resta a pista, esburacada.






7 comentários:

  1. promissora essa nova série. esse período do tcc foi realmente terrível pra todos nós. excelente material para focar o seu desespero literário. quero logo ler os próximos textos.

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  2. Vim retribuir a visita. Um jeito de escrever que não aborrece e estimula a leitura, gostei. Todas as vezes que sentir a pobreza dos meus textos aumentar,voltarei aqui para me inspirar.

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  3. Muito interessante o seu ewstilo de escrever. Estou aqui para lhe convidar a visitar o meu blog e se possivel seguirmos juntos por eles Estarei grato lhe esperando lá
    www.josemariacostaescreveu.blogspot.com

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  4. Ainda há resquicíos do sofrimento em minha Família, sou Bisneta de Nadir Magave, Neta de Francisco Magave, na casa situada na Av.Fab, moram Minha avó, meu avô, Irmã, meu Pai, e ao lado da Gol, Neide Magave, também filha de Nadir Magave, na casa em frente Mora Raimunda Magave, todos irmãos.

    Belo trabalho, escreves bem, e sabes a maneira certa de se expressar.

    Ass: Larissa Magave

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