quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O fim de todas as coisas vivas 1 de 9: O banco de concreto

No inicio do ano, eu precisei viajar para Belém. Odeio aquela cidade e ela sabe disso. Por isso, sempre que piso no solo paraense, sou acometido por alguma doença horrível ou atingido por alguma catastofre similar. Dessa vez, foi diferente. Não aconteceu nada, pelo menos comigo.Na verdade,preferia que tivesse acontecido comigo. Sou acostumado com os golpes terríveis que a vida me dá ( talvez seja pelo fato de eu estar sempre seriamente bêbado quando eles são desferidos) e por isso, eu ligo pouco para eles.Blábláblá Já estou fugindo do assunto. Vou logo pular todo o meu lamento para facilitar a vida do leitor.

Na minha curta estadia em Belém, eu costumava sentar em um certo banco, em uma certa esquina e fazer coisas idiotas que eu fazia na minha casa em Macapá e não fazia na minha casa em Belém pelo simples fato de não sentir que aquela casa era minha. As minhas atividades nesse banco eram contar dinheiro, falar sozinho e me sentir terrivelmente só e desolado nesse mundo tão cruel. Eu costumava a visitar ele nos dias de sabado e domingo.Ele era o meu único refúgio na triste Belém do Pará que fede a mijo e sonhos destruídos eternamente.

O banco foi arrancado do lugar que ele ficava por algum guincho gigante ou sei lá o nome daquela máquina medonha com garras. Quando eu o encontrei, ele era uma pilha de concreto e metal retorcido. Havia fezes de cachorro entre as ruínas do meu porto seguro. O horror havia levado outra coisa que eu amava de mim. Um morador estava alimentando alguns pombos sem fome. Eu fui até ele. Ele disse que o lugar que o banco ocupava serviria agora para alojar um caixa eletrônico do Bradesco.Ele estava bastante feliz por isso, o neto menor poderia ajuda-lo com as operações básicas de saque e extrato.Fazia anos que os moradores do bairro estavam pedindo um caixa eletrônico para essa área.

E o banco, eu perguntei.

Ele me disse que ninguém nunca notou que estava ali.


domingo, 28 de agosto de 2011

Dentes.

Hoje, eu acordei sem o meu dente número 17. Eu tenho um problema crônico na minha arcada dentária, metade dos meus dentes são restaurados e tem partes falsas.Quem já sonhou em perder os dentes sabe o quanto a situação é horrível, angustiante, fora de controle. Quem perde os dentes acordado tem uma sensação mil vezes pior.Eles nunca mais voltarão.Você nunca mais poderá comer o chocolate Talento. Minha mãe é dentista e sempre frisou a importância da higiente dental. Eu nunca liguei.Os meus dentes não resistiram ao meu vicio em Halls. E eu comecei a usar halls por que a pastilha benalet estava prejudicando a minha faringe.

Meu corpo perde a luta contra os meus vícios. Eles se acumulam cada dia mais. Bronco-dilatadores, anti-alérgicos,pastilhas, analgésicos e tudo mais que se pode engolir.Eu estou perdido. Eu li em algum lugar que o homem, para viver com dignidade, só deve viver até quando os seus dentes sobreviverem. Minha vida avança em progressão aritmética, meus dentes caem em progressão geométrica. Eu vejo os homens lindos da televisão, eu vejo a glória deles, eu vejo os barcos brilhantes, os carros luxuosos, eu vejo os dentes deles.Invejo o dentes, não invejo o resto.Não sei velejar, não sei dirigir. Só quero meus dentes de novo.Só quero poder ter a sensação de poder mastigar, mais uma vez, chocolate talento.

sábado, 6 de agosto de 2011

A gaiola das aves mortas

Tudo começou com a morte do primeiro periquito. Ele estava velho demais.Dos 65 periquitos da gaiola, ele foi responsável por quase 45% deles. Um dia, ou noite, ele simplesmente caiu no fundo da gaiola.Quando o dia amanheceu, ele já estava com as órbitas dos olhos cheias de formigas e outros insetos. Nós retiramos ele da gaiola e o enterramos no fundo do nosso quintal. Com ou sem aquele túmulo entre as mangueiras, o bichinho ia se decompor mesmo. Mas o cheiro iria incomodar o meu pai, incomodar os outros periquitos confinados e incomodar o perfeito daquela habit falso que era aquela imensa gaiola.

As outras mortes foram acontecendo logo depois. Pelo fato dos periquitos ficarem na mesma gaiola e terem como companheiros sexuais apenas primos e irmãos, as novas gerações iam nascendo cada vez mais fracas, cada vez mais aptas a doenças horriveis.Uma vez, um ovo não chocou junto com os outros, quando nós abrimos um liquído negro horrível escorreu da casca e um pequeno periquito deformado caiu aos nossos pés. Meu pai era um homem católico, os pais dele eram católicos. Será que ele não sentia a caracteristica culpa dos católicos por aqueles pobres animais?

Certa vez, uma chuva forte virou a gaiola. Os pássaros dentro dela enloqueceram. Mataram uns aos outros. O horror. Quando o dia amanheceu, havia menos de 15 periquitinhos vivos, todos seriamente feridos.As penas e os cadaveres dos mortos estava grudada ao chão da forma hedionda possível.Uma aquarela de sangue e penas de todas as cores possíveis. Sim, seria bonito se não tivesse cheiro e se não tivesse tantas formigas para ferrar os nossos pés. Aquela deve ter sido uma semana boa para as formigas.

Os periquitos foram levados para uma gaiola menor. Eu invejava o zelo que o meu pai tinha com aquelas aves. Cada morte, cada ferida infeccionada tirava lágrimas do rosto sempre severo dele. O mesmo valia para os outros animais da casa. Até para os patos que iriam encontrar a morte na ceia de natal.As feridas e constante umidade reduziram os periquitinhos a 3. Estes se curaram da última grande desgraça que ceifou a vida dos seus irmãos, pais, filhos, sei lá.

Mas não por muito tempo.

No fim do meu ensino médio, o último morreu.Dois anos depois da desgraça que levou os seus amigos, irmãos, primos, filhos, pais, mães, companheiros de cela. Morreu duro no fundo de uma gaiola pequena.Os olhos não foram devorados por formigas. A gaiola era suspendida bem alto. Meu pai estava viajando. Coloquei a ave morta dentro de um saco de lixo e joguei dentro do mesmo saco em que nós recolhíamos o lixo dos banheiros. Fiz uma cova de mentira para o bicho entre as mangueiras. Meu pai chegou, lavou a gaiola e comprou outros periquitos.

sábado, 23 de julho de 2011

O texto sobre a festa de animes que devia ir para o Blog Sou do Norte (mas não foi)

Atenção: Esse texto nunca foi publicado no Blog Sou do Norte. Ele é da minha total e completa autoria e responsabilidade. O texto é sobre as impressões que eu tive do evento chamado Amapanime e que, por razões óbvias, eu nunca tive coragem de mostrar a minha querida amiga Camila karina. Aí vai :


O inferno fede a punheta


Acabo de voltar do evento Amapanime. Estou sem internet. Ainda estou com o olho roxo. Meu nariz ainda sangra. As aftas que me impediam de mastigar e engolir a minha refeição desapareceram.Agora, eu posso beber agua, agora eu posso, finalmente, ficar livre do anestésico tópico que a minha mãe me deu para abreviar a dor insuportável que as aftas provocam.Ele era bastante eficiente. 15 minutos de dormência. Depois, a dor voltava pior.Muito pior. Isso é passado agora. Desse terrível só resta pequenas marcas embranquiçadas no meu lábio inferior.

Quando nós chegamos no Amapanime, o relógio marcava 16 horas e alguma coisa. O sol ainda estava muito forte. Não nos cobraram entrada. Acho que a organização do evento já estava cansada demais para ficar embaixo do sol cobrando quilos de arroz , feijão e toda essa merda.Minha mãe nunca gostou de ir em eventos que a entrada é o quilo de alguma comida "não perecivel". Ela acredita que o profissional que respeita o seu trabalho, cobra por ele.E cobra caro.

O amapanime estava dividido em dois públicos. O público que gosta de anime e que se sujeita as mazelas de gostar dessas coisas( exemplo:se vestir de majin boo sob um sol escaldante, pular em um tapete idiota fazendo poses constrangedoras e muito mais). O outro público é o que veio ver as bandas ( que estavam muito atrasadas).Esse tipo de iniciativa de colocar dois públicos em um evento feito especificamente só para um é,no minimo,desastrada.

Na verdade, eu sei lá se é desastrada ou não. Eu, Igor Reale Alves, sou um exemplo de vergonha alheia.Uma dia desses, eu estava andando na rua, quando eu percebi que estava indo no mesmo caminho que uma mulher e sua pequena filha de quatro anos. Eu continuei andando atrás delas e as duas aceleraram o passo com medo de mim. Muito medo, aliás. Era quatro horas da tarde. A hora dos pedófilos passearem de carro pela cidade, observando a doçura sem fim das crianças, o seu sorriso inocente, as suas roupinhas coloridas. Voltei para casa e imaginei como seria se eu estivesse fantasiado de majin boo ou algo do tipo? Fiquei pensando nisso por um bom tempo e depois parei.

Queria que a minha internet estivesse de volta. Minha internet sempre foi uma boa companheira.Tenho certeza que ela seria uma boa companheira agora.Estou viciado em realitys shows comportamentais do discovery health & people.Supernanny é o meu favorito. Durmo e sonho com os meus filhos imaginários aprontando peripécias terríveis que eu não sei como controlar.Então, eu chamo uma gorda de óculos e sotaque inglês. Ela me repreende por ser um péssimo pai para os meus filhos. Ela me põe no banco de castigo, me dá uns tapas, me deixa com olho roxo, caga no chão e me força a lamber. Sim, depois disso eu serei disciplinado. Para sempre.








 

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O calendário

Os meus tios acharam que era uma boa idéia trazer a minha bisavó para morar em Macapá. Ela havia morado a vida toda em um pequeno sítio no interior do município do Amapá. Lá ela criou a minha avó e tudo mais. O principal argumento ,a favor da mudança, era o fato de que o lugar não tinha bons hospitais para uma pessoa idosa. Minha bisavó odiou a idéia, mas confiou nos filhos, pois eles haviam feito um curso superior, diferente dela.

No lugar do vasto sítio que ela ocupava no Amapá, a minha bisavó ocupou um pequeno quarto na casa da minha avó aqui em Macapá. O quarto tinha uma cama, uma mesa, umas cadeiras e um calendário que um dos filhos deu a ela. O calendário tinha uma foto de uma casinha de madeira no meio de uma floresta. Minha bisavó sempre apontava para o calendário e dizia que parecia com o lugar que ela morava antes. Havia uma frase embaixo da foto, mas ela não sabia ler.

Distante do verde do campo, do ar puro, das vacas, dos bezerros e dessas coisas em geral, a minha bisavó se tornou um tanto cruel e mesquinha. Ela passava o dia todo humilhando a empregada negra, comparando a pobre mulher com uma vaca de cor preta que havia morrido soltando pus das tetas. Para evitar processos e coisas assim, a minha vó sempre argumentava com os ofendidos, explicando que a idade fazia isso as pessoas.

Depois de completar 89 anos, minha bisavó sofreu um colapso e ficou vários dias em coma. Os filhos achavam que ela não iria passar dessa e começaram a dividir a herança, uma tia minha tirou um cordão do pescoço da moribunda e deu para uma das filhas. Outra levou a mobília do quarto deixando só a cama, outro tomou posse dos lençóis de linho que a minha bisavó havia bordado na juventude,quando ela possuía uma longa trança loira e andava de cavalo pelos campos do Amapá, uma terra virgem naquela época.

Uma porca de porcelana, que continha jóias e coisas do tipo, foi espatifada no chão e o conteúdo foi divido entre os filhos e netos. Mas minha bisavó não morreu. Um dia, ela recobrou a consciência. Ela não reconhecia os filhos que estavam no pé da cama. O médico disse que era Alzheimer, uma doença que destrói a memória das pessoas pouco a pouco.Ela já tinha a doença há muito tempo, mas esse foi o colapso final da doença, aquele que o ser humano esquece que é ser humano.
Minha bisavó tem uns noventa e sete anos hoje mas não anda, não fala, não pensa, não lembra que tem que fazer cocô e precisa usar fraldas. O calendário , citado no ínicio do texto, foi jogado fora há muito tempo. No lugar dele, há um outro com São Sebastião, amarrado em uma árvore, cravado de flexas. Dramático mas sem significado igual a vida da minha bisavó.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Deus é firmamento

Deus salvou a vida de muitos conhecidos e parentes meus. Esses homens e mulheres ou eram doentes sexuais ou alcólatras no fim da linha. Deus salvou todos eles. Depois do salvamento, o nome do rei dos céus virou uma vírgula nos seus depoimentos para os incautos que ainda não conhecem a palavra. Nunca recebi essa palavra. Não sou degenerado o suficiente para servir de propaganda de salvamento divino.

Minha cadela pandora sempre engravidava. De seis em seis meses, o nosso quintal ficava empestado de cheiro de merda e filhotes.Essa era uma das poucas épocas felizes que eu tenho lembrança na minha pobre, ridícula e patética vida. Os filhotes eram lindos. Apesar das opiniões contrárias, eu também achava a minha cadela bastante bonita e os filhotinhos seguiam o mesmo padrão de beleza. Na verdade, a mulher que eu considero mais bonita foi a minha falecida cadela.

Em uma manhã qualquer, um pequeno buraquinho apareceu em um dos filhotes da pandora. A nossa empregada foi nos mostrar, ela disse que se tratava das larvas da mosca varejeira. Minha mãe disse que amoxilina resolveria o caso e curaria o filhote. Que bobagem. Amoxilina é antibiótico, não vermífugo.As larvas  proliferaram. Nós o separamos dos outros filhotinhos sadios. Eu , inocentemente, jogava mais e mais amoxilina dentro do buraco. Oito da noite: o cachorro gritava de um jeito terrível. A pandora não deixava ele chegar perto do resto da ninhada. Ela o ameaçava com os dentes.

Amanheceu. Um pastor mostrava a história de vários homens e mulheres redimidos da doença, do pecado, da miséria, dos vícios, da falência. Todos eles apareciam na tv com uma aparência ótima: cabelos penteados, óculos, vestido, blusa social e tal. Talvez Deus os tenha salvo devido a essa capacidade desses homens e mulheres espalharem a palavra Dele para outros desgraçados.Propaganda é a alma do negócio.

O cachorrinho não conseguia mais andar pela manhã.O buracos já estava grande demais. Nos seguramos ele pela cabeça e arrancamos as larvas com um pinça que tinha aqui em casa. O cheiro era terrível. Na hora, lembrei do programa que vi na TV e rezei para Deus salvar aquela pobre criatura. Uma hora depois ,o cachorro vomitou meio quilo de vermes ,um litro de sangue no colo da minha mãe e depois morreu. Ficamos meia hora olhando o filhote, colocamos ele dentro de um saco preto, lavamos a área que ele ficou com agua sanitária e depois saímos para lanchar na rua.








quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Magave 1 de 8: A base aérea do Amapá

Dirígivel pousando na base aérea do Amapá.


Quando eu, finalmente, consegui coragem para ir na casa dos Magave, o nosso trabalho já estava fadado ao fracasso.Tínhamos um plano ambicioso para a nossa conclusão de curso: íamos nos aproveitar da sede de sangue e formatos estéticos para contar de uma forma totalmente diferente, a a história da família Magave.Foram cinco longos meses morrendo na praia, se fodendo e , diferente das outras histórias edificante que eu ja tinha lido na minha vida, e as coisas estavam bem longe de terminar.

Bem, antes de dar inicio ao making-of mais triste da história da humanidade, eu irei explicar de onde tirei a minha triste idéia. Tudo começou em mais um dia improdutivo na faculdade de jornalismo, um curso que eu escolhi por pura falta de opção e para diminuir a minha sempre tão terrível melancolia.Comecei a fazer esse curso em 2006, um ano depois do horror terrível que consumiu a minha alma em outra cidade. Uma época em que qualquer horror era incomparável e a dor do meu ser atingia níveis críticos.

No anterior a 2006, eu fui passar um curto período de 3 meses na casa da minha vó materna. Eu e a minha tia moribunda. Esse periodo compreendeu o dia dos finados ( que a minha tia dizia já comemorar como se já estivesse morta), o natal ( que ela fazia questão de dizer a todos que seria o último), o ano novo ( que ela dizia ser o ano final da vida dela, me fazendo ter uma séria crise de ansiedade e asma), o aniversário da minha tia( que ela se recusou a tirar fotos por causa da careca), o meu fracasso no vestibular ( que ela já dizia que já sabia que ia acontecer, pois ela me considerava um retardado), a perda da virgindade do meu primo ( que a minha tia espalhou para a família toda no almoço) e a própria morte dela( que eu não vi).

Nesse período, a casa da minha vó se enchia de parentes que gostavam de prestar solidariedade a semi-morta, crentes oportunistas, crianças e eu. Havia pessoas estranhas visitando a casa, pessoas bem estranhas. Duas, eu gostaria de destacar. A primeira era os vendedores de NONI.Um suco de fruto com poderes medicinais que eu sei bastante pouco, mas pesquisei na internet para fornecer aos leitores desse blog, uma noção do que é. Então vamos lá:

"O suco Tahitian Noni não é um medicamento.
Seus inúmeros benefícios para a saúde advêm de seu altíssimo valor nutricional. Ele é um alimento natural. Além dos aspectos nutritivos básicos (balanço calórico, protéico etc.).
Também pode ser considerado um complemento alimentar bastante completo, possuindo uma grande variedade de nutrientes e micro-nutrientes, dentre eles a proxeronina, cujos benefícios para a saúde são facilmente notados pela imensa maioria das pessoas que utilizam o suco por tempo suficiente para suprirem suas deficiências nutricionais. A verdade é que hoje em dia, quase todo mundo tem algum tipo de carência e desequilíbrio no que se refere à sua nutrição. É por esse motivo que as pessoas doentes (seja qual for a enfermidade) costumam beneficiar-se do suco Tahitian Noni. Muitos de seus sintomas se atenuam ao fazerem uso do suco, o que acaba por confundi-las, fazendo com que pensem que o suco as curou. Entretanto, a verdade é que essa melhora é o resultado da ação reconstituinte do Noni, que ao nutrir adequadamente as células, faz com que o organismo recupere seu funcionamento harmonioso, que se traduz em saúde e sensação de bem estar. Isso se deve não apenas à xeronina, mas à ação sinérgica dela e dos demais constituintes do suco Tahitian Noni."

Os vendedores de None apareciam sempre em todo sexto dia do mês. Uma mulher com uma aparência desgrenhada descia de um Pallio com uma grande mala. Eu e os meus primos ajudávamos a carregar a mala. Ela não agradecia. Havia um ar idiota e superior no rosto dela que era acentuado pelo nariz empinado . O marido vinha logo atrás, sempre atrás.Destratado pelos 6 degraus que compunham a escada que dava o acesso a casa da minha vó, ele afirmava que a esposa fazia isso apenas para se mostrar para os estranhos, pois na cama, ela ficava bem quietinha a espera do pau dele. "Coisas de mulher rá rá rá" ele dizia.

A mala era arrastada até o quarto que ficava a minha tia. A mulher que vendia o NONI era xingada pela minha tia  por fazer tanto barulho, por usar um perfume tão forte, por causa do leve cheiro suor que ela emanava por sair do carro e subir as escadas de concreto. A vendedora de NONI ria e dizia que a carequinha era braba demais, mas o NONI iria resolver isso.Então ela tirava uma garrafa com um líquido vermelho com uma etiqueta de um havaiano segurando um cacho de algo que parecia uvas vermelhas. Quando a garrafa era destampada, o conteúdo emanava um ar doce pelo quarto. Minha tia sentia ânsia de vômito e algum primi meu corria com uma pequena bacia para acudí-la.

O fato é que o NONI, de certa forma, exercia uma pequena melhora na minha tia. Os lábios ganhavam cor novamente e , raramente, ela abria um sorriso.Nós tentávamos rir com ela, mas eramos repreendidos pela sua vilania sem fim. Infelizmente, a quimioterapia tornava o NONI intomável. O cheiro doce esbarrava no enjôo sem fim do procedimento. Todas as ávores do Havaí que cresciam na mente do usuário pareciam secar até a morte. Os troncos pareciam ficar opacos, o céu azul parecia perder a cor e os amantes, na beira da praia, se contorciam com uma dor sem fim. Os olhos saltavam das órbitas e o horror dominava aquela terra vírgem.

Os segundos visitantes eram de uma pequena igreja, formada recentemente no Pará.Mais uma. Igreja do diagrama divino. Fundada em 1956, pelo missionário João Batista figueredo, a igreja conta com bastante fiéis no Brasil inteiro. Tudo começou quando uma das filhas do fundador caiu doente em uma bela tarde. A família era bastante católica e rezou bastante para a cura da criança, o que não deu muito certo, pois a criança morreu logo depois, engasgada com o próprio vômito, depois de ter tossido bastante.

Durante o enterro da criança, o pai sentiu fortes dores na região do abdômem por muitos e muitos dias. Ele foi levado para o hospital e depois de alguns exames, foi constatado que ele possuía a mesma doença da filha( e mais uma úlcera). Ele passava o dia todo consumido pela doença e pelos remédios. Nas alucinações mais loucas, a filha vinha direto do mundo dos mortos e lhe fazia um delicioso e suculento sexo oral. A filha dizia para ele algumas palavras sábias, mas ele não entendia por causa do pênis que entupia a boca da criança.

Um dia, a dor alcançou níveis horrendos e ele começou a gritar. A esposa, incomodada, saiu de casa e começou a gritar por ajuda na rua até parar e comer alguma coisa na lanchonete da esquina. Ele ficou lá , no quarto, sozinho como todo homem,fechou os olhos com tantas força que um desenho apareceu, quando ele abriu os olhos. Esse desenho:
O círculo da dor e as suas mútiplas camadas
Bem, não havia esses numeros e tal, mas o círculo de camadas apareceu dessa forma em sua visão e permaneceu o suficiente para ele transcrever em um pequeno papel. Uma coisa notável no círculo era que, dependendo da situação, certas camadas pareciam se destacar mais que as outras. Abatido pelo luto e pela doença, a região número 3 pulsava com mais força na sua vista.Bem, vou parar de contar a história da igreja, pois eu ainda tenho que falar do meu próprio drama pessoal e, pelo menos, iniciar a triste história que envolve eu e a também triste história da família Magave.

Por isso, vou explicar a idéia central da igreja. As camadas de dor mostram o quanto o homem está distante de Deus e cego pela própria dor. A missão da igreja, então, é fazer o fiel se livrar da redoma interminável desse terrível circulo e iniciar uma nova vida, onde unicórnios comem mato no quintal e tudo mais.Coisas que toda religião promete.

A primeira visita aconteceu em um dezembro realmente chuvoso. Seis pessoas de terno, desceram de um um kombi. Eles subiram os degraus que davam acesso a casa da minha vó. Uma mulher baixinha e gorda reclamou da coluna e foi repreendida por um irmão de igreja. "Quem acredita, não reclama". Minha prima abriu a porta para eles. No entanto, o portão que ficava antes da porta, estava cheio de cadeados. Começou uma chuva. Os evangélicos foram se ensopando enquanto a minha prima procurava pelos cadeados. "Quem acredita não se molha" disse um deles.

Quando eles finalmente conseguiram entrar na casa. A minha vó deu toalhas para se enxugar e ofereceu um café para eles esquentarem o corpo. A irmã gordinha aceitou. O chefe da comitiva perguntou para ela em que camada ela estava no círculo. Ela fechou os olhos e visualizou a pequena casa de madeira que ela morava na periferia daquele lugar, viu os filhos, o marido desempregado, a cadela Léssi e o círculo foi se formando. Ela começou a chorar e se contorcer no chão. O horror no rosto dela era visível. Os outros irmãos começaram a gritar de dor em solidariedade a irmã. A chuva lá fora piorava.

O chefe da comitiva desenrolou um papel com um circulo com umas dezessete camadas. Ele perguntou da gordinha, que ainda se contorcia, em qual camada ela estava. Ela apontou a camada número 12, azul claro. Sim. O azul claro das manhãs sem sol, onde os bois pastam, as borboletas voam sobre as floreso, o orvalho seca nas folhas. Todo milagre do mundo acontece nas manhãs de azul claro. Davi, o pastor anda pelos pastos, comtemplando a obra do Criador. Uma ovelha se fere em um espinho. O espinho se infecciona e mata a ovelha algum tempo depois. O cadáver apodrece entre as ovelhas que acabam morrendo também. Agora, todas as ovelhas apodrecem ou agonizam no pasto. Davi viu a morte, Davi perdeu a inocência. O gigante Golias tomba sobre  a terra. Davi agora é rei. Davi manda Urias para morrer na guerra. Bate-Seba deita, nua, no divã. O pecado destrói a estrela de seis pontas. O servo toca na urna sagrada e morre. Natã aponta o dedo acusador para o sucessor de Davi.

A pequena crente para de contorcer. O chefe da comitiva explica a ela que quem acredita não tem convulsões. Ela acena a cabeça concordando. Eles se dirigem para a cama da minha tia, que, agora, não passa de um pequeno reflexo do que já foi no passado. A cabeça sem cabelos, o corpo magro demais, a voz asfixiada, o braço queimado na radioterapia. O papel com o círculo é grudado na parede e aquelas pessoas explicam a minha tia como funciona. Minha tia não ouve mais. Se Deus é responsável pelas coisas, ele foi realmente cruel com ela. Ela os enxotou do quarto e ficou chorando durante meia hora. As pessoas que ficavam com ela estavam meio entediados das mesmas cenas sempre, por isso só restou a eles darem um longo e triste suspiro.

O chefe da comitiva explicou a minha vó que o trabalho demoraria para surtir efeito.Em maio, eles voltariam lá. Em maio, a minha tia ja estava morta. Seriamente traumatizado, eu voltei para Macapá( estou odiando essas novas configurações do blogger)e ingressei na faculdade de jornalismo.Foram três anos e meio de completa inutilidade. Eu sempre me espanto com a minha capacidade de ser um completo idiota em tudo o que eu faço. No último ano, eu ingressei no coletivo palafita e tive a minha incrível idéia para o tcc. Um quadrinho contando o hediondo destino dos Magave, uma família do município do Amapá. Para isso, eu contei com a minha parceira Danielle( que sofreu bem mais que eu no processo do trabalho) e muito azar.

Nossos trabalhos começaram no segundo semestre de 2009. A pobre Danielle se deslocava do extremamente longíquo bairro Universidade para a minha casa no Cabralzinho. Em todos os nossos encontros, eu estava completamente destruído pelo meu horror pessoal( que estava no auge naquela época). Dessa forma, nossas reuniões não eram nada lucrativas. A parte que cabia a Danielle( a monografia) andava perfeitamente bem. A minha ( o roteiro) nunca passava da página 4. Na verdade, devido a minha volubilidade com as coisas, eu não estava mais nem aí para o tcc e os Magave e , pensando bem, eu nunca tive, de fato, um envolvimento com todo o drama da história.

O trabalho todo era feito pela pobre Danielle que, jamais, reclamava.E assim passou Agosto, Setembro, Outubro, Novembro.Havia a necessidade da família ser entrevistada. Nós conseguimos localizar um Magave que morava na Avenida Fab, em Macapá. Marcamos a nossa primeira entrevista com ele. Eu faltei e fiquei em casa, choramingando pelo meu drama pessoal e depois saí para beber. A primeira entrevista ocorreu sem problemas, a minha parceira de TCC marcou um retorno e me informou que eu teria que ir. Isso me deixou irritado, pois eu tinha medo das consequências emocionais para mim ao falar com alguém que tinha sofrido um trauma tão grande.

Dessa forma, eu arquitetei para fugir mais uma vez desse terrível encontro. No entanto, eu não consegui. Então, em algum dia de novembro, eu e a minha parceira de tcc esperávamos pelo nosso entrevistado, que ainda não havia chegado em casa. A residência dessa parte da família Magave fica na Avenida Fab, perto de um depósito da companhia áerea GOL. A casa tem uma frente simples, há um pequeno portão de ferro que fica antes da entrada da porta principal. A casa parece ter outras seções na parte de trás, onde devem morar mais membros da família. Coisa bem normal em Macapá. Na frente da casa, há um daqueles carros com caminhonete e outro carros. Existe, também, um pequeno desnível da casa dos Magave para a loja da companhia GOl. As pessoas usam esse desnível para se sentar.

O nosso entrevistado era Francisco Magave, um dos filhos da senhora Nadir Magave que perdeu a vida naquele triste episódio. Na época, Francisco cuidou dos tramits que envolviam o funeral dos seus irmãos e de sua mãe, da intricada e quase sempre infrutífera investigação dos casos e da imprensa amapaense ( que não perdia a oportunidade de chama-lo de Raimundo). Hoje, ele parece seriamente afetado pela experiência. A nossa entrevistada sempre era interrompidas pelos constantes brancos que o entrevistado tinha. Para ajudar a memória, ele conta com um pequeno clipping de matérias da época, algumas fotos dos familiares mortos, laudos da perícia, carta dos acusados e só.

Algumas vezes, ele fitava o vazio e ficava nisso por dois, três minutos. Nós ficávamos bastante constrangidos e quando tentávamos retornar o assunto, ele já não conseguia mais voltar ao ponto de que tinha parado. O sol castigava o asfalto e o nosso estômago começava a sofrer demais. As diversas explicações fragmentadas do entrevistado criavam mais e mais fissuras na história original. Eu fechava os olhos e enxergava o círculo de dor com umas 90 camadas. Todas pulsando fortemente. A parte boa da entrevista é que muitos mitos a respeito da família foram caindo. O primeiro foi o de que a família toda morou a vida toda no sítio em que ocorreu o incidente.

O pequeno sítio, na verdade, era apenas uma propriedade da família. Os magave residiam na base aérea do Amapá. Na época, a base devia estar no seu auge. O local foi construído por causa da localização específica. Os Magave devem ter visto os muitos dirígiveis pousando na pista imensa. Esses traziam carros, tanques, armas, soldados e coisas do tipo. Meu avô presenciou um dirigivel imenso passando sobre a pequena cidade que ele morava, no interior de Vigia, no Pará. Eram imensos, silenciosos e faziam as crianças chorarem. As mães diziam aos filhos que as cordas que saíam daquelas coisas iria levar todas as crianças malcriadas para o inferno. As crianças choravam desesperadas.

Depois da guerra, os americanos foram embora e levaram toda a infra- estrutura da base. O lugar foi se degradando aos poucos. Com o acidente do dirígivel Hindenberg, a fabricação dos dirigíveis foi paralizada para sempre. O céu agora era dominado pelos barulhentos aviões. Não o céu do Amapá. Com a base desativada, os aviões pararam de pousar ali, as instalações da base foram tomadas pelo mato, as placas foram destruídas pela ferrugem. Hoje, só resta a pista, esburacada.